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Verde que te quero verde

05 maio 2017

Uma casa de alguém, assim tal e qual, eu gostava de ter para mim. A tinta amarela duma porta. Uma vassoura deixada à pressa para trás, depois de fecharem a porta para não mais voltar. Pequena entrada cor de rosa para a corte dos animais que se imagina serem de grande porte.

Um cravo ao peito e uma conta de Viana no pescoço.

Flores colhidas especialmente para o meu herbarium. Um laranjal semeado numa pequena horta. Os terrenos bonitos em socalcos do Soajo.
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Verde que te quiero verde

Verde que te quiero verde
verde viento verdes ramas
el barco sobre la mar
el caballo en la montaña.

Verde, que yo te quiero verde. 

Con la sombra en la cintura 
ella sueña en la baranda 
verdes carne, pelo verde
su cuerpo de fría plata.

Compadre quiero cambiar
mi caballo por tu casa
mi montura por tu espejo
mi cuchillo por tu manta. 

Compadre vengo sangrando
desde los Puerta de Cabra
y si yo fuera mocito
este trato lo cerraba.


Federico García Lorca

O que me deu Martim Tirado

23 novembro 2016























Já na estrada, a caminho da festa em honra de São Martinho, paramos para cumprimentar uma vizinha, a Tia Isaltina. 

Elogiamos-lhe os bonitos e longos cabelos brancos, que se apressou a explicar a razão de estarem soltos, enquanto despia a bata que pousou numa pedra ali ao lado, contou que estava a pentear o cabelo e não queria sujar a roupa.
Era Domingo.

Lembrou-me a minha avó Ermelinda, depois dela nunca mais voltei a ver um cabelo branco, assim, à espera de ser enrolado e preso com travessões.

Uma senhora com cerca de 80 anos com uma energia invejável e sempre com um sorriso pelo meio da conversa sobre a vida.

Mas estava tudo ali, ou o mais importante, o trabalho de apanhar a azeitona e demolhá-la, a vassoura feita de giestas, os molhos de lenha, a disposição dos vasos em pequenos jardins, os panos aqui e ali a corar, a água e o prato para o gato, o único que vi, amarelo e grande como o companheiro de horta da minha avó, que apesar de não reconhecer em voz alta, sentia a falta do Mosquito a roçar-se no avental, mesmo que fosse para o poder afugentar.

Cantou para todos nós e foi como se tivesse cantado para cada um em especial.

Da Serra

19 julho 2016










Subir à Serra com o propósito de visitar uma fábrica, conhecer por dentro um projecto com o qual tenho o previlégio de estar a colaborar e tomar-me ainda mais de amores por estas paisagens de lagoas.

Voltar para conhecer uma Serra que só conhecia noutra estação do ano e que desde a infãncia fazia parte dos destinos de Inverno.

Desde há uns meses a trabalhar em exclusivo com fios que têm origem nesta Serra e que ainda trazem com eles, entrançadas nas fibras, pequenas plantas onde as ovelhas pastam, faltava apenas ir ao encontro do espírito deste projecto, cheio duma história que já conta muitos anos.

Há histórias só possíveis de conhecer estado fisicamente nos locais, há fábricas que parecendo museus, são-no duma forma viva e apaixonada, tendo o poder de nos fazer sentir ainda mais orgulhosos das nossas tradições, onde as matérias primas mais simples se transformam nos produtos mais sofisticados, mantendo no entanto toda uma memória colectiva que é visível e se sente a cada toque.

Depois de assistir pela primeira vez a uma tosquia, poder seguir de perto o percurso da matéria prima, desde a cardagem, à fiação até chegar aos produtos finais tem servido para conhecer melhor os materiais que tenho à minha disposição para trabalhar, que são vários apesar de todos serem produzidos a partir da lã.
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A estadia duma noite foi o prolongamento de todo o encantamento, na Casa das Penhas Douradas.
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Nestes dias de calor, passados no centro da cidade, é difícil saber que aqui tão perto há paisagens assim sem ter vontade de voltar para lá e esperar pela chegada do Outono

Fiação

13 julho 2016


































Através de métodos tradicionais e com equipamentos que vão do tear com centenas de anos, ainda fabricado em Portugal, aos mais modernos com sistemas informáticos instalados, todo o percurso por que passa a lã, desde que chega à fábrica proveniente dos rebanhos da região, até chegar ao fio, processa-se em várias máquinas e várias mãos. Todos em conjunto fazem este ciclo tornar-se completo até se fechar.

O fio não é o produto final, é apenas mais uma matéria prima, aquela que a fábrica utiliza para a produção das Mantas e do Burel.

Se há uns anos atrás era difícil encontrar burel ou sarrubeco, mesmo no comércio mais tradicional e se resumia a uma pequena gama de cores, este está agora disponível nas lojas da Fábrica e para todo o mundo.
Tem uma qualidade incontestável, uma paleta de cores irresistível e é inteiramente produzido em Portugal.
Mais uma prova dada de que sabemos fazer e sabemos fazer bem.

Cardagem

04 julho 2016














O processo de cardagem industrial é em tudo semelhante ao manual, tendo sido as escovas substituídas por uma máquina que as tem em maior escala e que faz o mesmo trabalho em muito maior quantidade de lã ao mesmo tempo, mas nem por isso dispensando a mão de obra humana.

Depois de ter assistido à Tosquia, vir até à Serra da Estrela, à Burel Factory e dar continuidade ao percurso que a lã faz até ser transformada em fio, foi fazer uma espécie de Transumância da matéria prima.

É ela que está aos meus pés, mas a rendida sou eu.