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Uma praga comestível

15 março 2018













Nothoscordum gracile (Alliaceae)

Andei a recolher alhos bravos espontâneos. São os alhos que temos no quintal. Por enquanto de tudo o que temos e colhemos nada foi plantado.

Sempre conheci estas flores como sendo uma praga difícil de combater e quase impossível de eliminar.

Há pouco tempo descobri que os seus alhos são comestíveis e fiquei curiosa por experimentar. Neste momento estão a secar, o que deve demorar com este tempo húmido.

Um dos próximos livros a comprar será da Fernanda Botelho.

O sexo das flores

10 janeiro 2017










Fig. 51 - Posição do ovário nas flores da :

1, couve (súpero) ; 2, laranjeira (súpero) ; 3, brinco-de-princesa (ínfero)
...

Floriram há uns dias, foram as últimas a reproduzirem-se ali no quintal. 
A música era esta.
...

A ler, uma entrevista a Zygmunt Bauman. Um dia depois da sua morte.

Eu parto com o ar

25 setembro 2016






Eu parto com o ar
Sacudo minha neve branca ao sol que foge,
desfaço minha carne em redemoinhos de poeira,
entrego-me à terra para crescer nas ervas que amo.
Se queres ver-me novamente, procura-me sob teus sapatos;
Dificilmente saberás quem sou ou o que significo.
Mas se não conseguires me encontrar, não desanimes;
O que não está numa parte está noutra
Nalgum lugar estarei à tua espera.

 Leaves of grass 
de Walt Whitman

A una mujer

27 julho 2016




































No hay que llorar porque las plantas crecen en tu balcón, no hay
que estar triste si una vez más la rubia carrera de las nubes te reitera
lo inmóvil, ese permanecer en tanta fuga. Porque la nube estará ahí,
constante en su inconstancia cuando tú, cuando yo -pero por qué nombrar el polvo y la ceniza-.
Sí, nos equivocábamos creyendo que el paso por el día era lo efímero, el agua que resbala por las hojas hasta hundirse en la tierra.

Sólo dura la efímero, esa estúpida planta que ignora la tortuga, esa blanda tortuga que tantea en la eternidad con ojos huecos, y el sonido sin música, la palabra sin canto, la cópula sin grito de agonía, las torres del maíz, los ciegos montes.
Nosotros, maniatados a una conciencia que es el tiempo,no nos movemos del terror y la delicia, y sus verdugos delicadamente nos arrancan los párpados para dejarnos ver sin tregua cómo crecen las plantas del
balcón, cómo corren las nubes al futuro.

¿Qué quiere decir esto? Nada, una taza de té. No hay drama en el murmullo, y tú eres la silueta de papel que las tijeras van salvando de lo informe: oh vanidad de creer que se nace o se muere, cuando lo único real es el hueco que queda en el papel, el golem que nos sigue sollozando en sueños y en olvido.

Julio Cortázar 

... 

E assim, hoje, dando-me a ler um poema me quiseram oferecer um sorriso. E assim conseguiram.

Catálogo

12 julho 2016














Um catálogo com amostras de fios e referências de cores, seguramente com muito mais de cem anos, tantos como algumas das máquinas que ainda laboram na fábrica.

Com a ajuda da M que ía folheando enquanto eu fotografava, fica o registo destas páginas todas cuidadosamente manuscritas, algumas delas autênticas aguarelas.

"É Preciso também não Perdoar"

06 junho 2016




"Há uma hora em que se deve esquecer a própria compreensão humana e tomar um partido, mesmo errado, pela vítima, e um partido, mesmo errado, contra o inimigo. E tornar-se primário a ponto de dividir as pessoas em boas e más. A hora da sobrevivência é aquela em que a crueldade de quem é vítima é permitida, a crueldade e a revolta. E não compreender os outros é que é certo."

Clarice Lispector
...

"O perdão deixa tudo ser como é?
Deixa, porque dá o benefício àquele que cometeu o gesto detestável. Eu gostaria de ser perdoada em todos os casos? Não."

"Só começamos depois de avançar."
 Maria Filomena Molder numa entrevista ao jornal Expresso.
...

Savages - "The Answer"

[...]

02 maio 2016

Que é voar?
É só subir no ar,
Levantar da terra o corpo, os pés?
Isso é que é voar?
Não.

Voar é libertar-se,
É pairar no espaço, inconsistente,
É ser livre, leve, independente,
É ter a alma separada de toda a existência,
É não viver senão na não-vivência.

É isso voar?
Não.

Voar é humano,
É transitório, momentâneo...

Aquele que voa tem de poisar em algum lugar:
Isso é partir
E não voltar.

Ana Hatherly

Manu & Mitsou

24 abril 2016























Os gatos, o nosso consolo. Assim como os livros.
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"Encontrar uma coisa é sempre agradável; um momento antes e ela ainda não estava lá. mas encontar um gato: é extraordinário! Porque este gato, o leitor estará certamnete de acordo, não entra completamente na vossa vida, como aconteceria, por exemplo, com um brinquedo qualquer; mesmo pertencendo-vos agora, permanece um pouco de fora, e isso faz sempre:

a vida + um gato

o que somado dá, asseguro-vos, uma soma enorme."

MITSOU 
Quarenta desenhos de Balthus com prefácio de Rainer Maria Rilke. Da editora Relógio D'Água.

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Mais um dos meus livros preferidos, descoberto pela noite adentro, através da Ennui.

Desmarginação

04 abril 2016

"A 31 de Dezembro de 1959 Lila teve o seu primeiro episódio de desmarginação. O termo não é meu, foi ela que sempre o usou, forçando o significado corrente da palavra. Dizia que nessas alturas as margens das pessoas e das coisas se dissolviam de repente. Quando, naquela noite, no alto do terraço onde estávamos a festejar a chegada de 1960, foi acometida bruscamente por uma sensação desse tipo, assustou-se e guardou o caso para si, ainda incapaz de lhe dar nome. Só anos depois, numa noite de Novembro de 1980 - tínhamos ambas trinta e cinco anos, éramos casadas, mães de filhos -, me contou em pormenor o que lhe acontecera naquela ocasião, e que ainda lhe acontecia, e pela primeira vez recorreu a esse vocábulo.

Estávamos no exterior, no alto de um dos prédios do bairro. Apesar de fazer muito frio, usávamos vestidos leves e decotados para parecermos bonitas. Olhávamos para os homens, que estavam alegres, agressivos, figuras escuras excitadas pela festa, pela comida, pelo espumante. Acendiam as mechas dos fogos de artifício para festejar o ano novo, ritual a que Lila, como depois contarei, dera a sua colaboração, e agora olhava com satisfação as linhas de fogo no céu. Mas de repente - disse-me - , apesar do frio começou a cobrir-se de suor. Pareceu-lhe que todos gritavam muito alto e se movimentavam muito depressa. Essa sensação foi acompanhada de náusea e ela teva a impressão de que alguma coisa material, presente em seu redor e em redor de todos e de tudo desde sempre, mas imperceptível, estava a destruir os contornos das pessoas e das coisas e a revelar-se.

O coração batia-lhe descontroladamente. Começou a sentir aversão pelos gritos que saíam das gargantas de todos aqueles que circulavam pelo terraço no meio dos fumos, no meio dos rebentamentos, como se aqueles sons obdecessem a leis novas e desonhecidas. A náusea cresceu, o dialecto deixou de lhe ser familiar, tornara-se-lhe insuportável o modo como as nossas gargantas húmidas banhavam as palavras no líquido da saliva. Uma sensação de repugnância apodera-se de todos os corpos em movimento, da sua estrutura óssea, do frenesim com que se agitavam. Como somos mal feitos, pensou ela, como somos insuficientes. Os ombros largos, os braços, as pernas, as orelhas, os narizes, os olhos, pareciam-lhe atributos de seres monstruosos, caídos de qualquer recanto do céu negro. E o asco, sabe-se lá porquê, concentrava-se sobretudo no corpo do seu irmão Rino, a pessoa mais familiar, a pessoa que ela mais amava.

Parecia-lhe que o via pela primeira vez tal como ele era, uma forma animal atarracada, membruda, a que mais geitava, a mais feroz, a mais voraz, a mais mesquinha. O tumulto do coração dominava-a, sentia-se sufocar. Fumo a mais, mau cheiro a mais, demasiado relampejar de fogos na geada.Lila tentara acalmar-se, dissera a si mesma: tenho de agarrar o caudal que está a atravessar-me e atirá-lo para fora de mim. Mas nesse instante ouviu , entre os gritos de alegria, uma espécie de última detonação, e passou-lhe qualquer coisa ao lado, como que o sopro de um bater de asa. Alguém estava a disparar, já não foguetes e morteiros, mas tiros de pistola. O seu irmão Rino gritava obscenidades insuportáveis na direcçãodos clarões amarelados.

Na altura em que me fez essa descrição, Lila disse também que aquela coisa a que chamava desmarginação, embora a tivesse atingido de forma clara só daquela vez, não era totalmente nova para ela. Por exemplo, já tivera muitas vezes a sensação de entrar, durante fracções de segundos, numa pessoa ou numa coisa, ou num número, ou numa sílaba, violando-lhe os contornos. E no dia em que o pai a atirara pela janela, tivera a certeza absoluta, enquanto voava em direcção ao asfalto, de que pequenos animais vermelhados, muito amigáveis, estavam a dissolver a composição da estrada, transformando-a numa matéria lisa e macia. Mas naquela noite de fim de ano apercebera-se pela primeira vez da existência de entidades desconhecidas, que quebravam o contorno habitual do mundo, deixando ver a sua natureza assustadora. E isso tinha-a transtornado."

A Amiga Genial, de Elena Ferrante 
Editora Relógio D' Água

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Quase todos os meus livros preferidos estão de alguma forma ligados, não apenas e obviamente aos autores, mas também às pessoas que mos ofereceram ou aconselharam e aos momentos especiais em que os li. Este é mais um que ficará para sempre associado a alguém que já entrou na minha vida.

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A última fotografia é da Diane e tem como título "Comme je la vois".

Quem ama cuida

12 março 2016


O ambiente que nos rodeia, os nossos interesses, necessidades e gostos, ditam muitas das vezes as peças que criamos. 

Condicionada que estou pela mania de transportar comigo, para onde quer que vá, a máquina fotográfica, o caderno de apontamentos, o porta-moedas, o telemóvel, as chaves de casa, os muitos lenços de papel, o livro que ando a ler, as canetas, o novelo e as agulhas... e o que mais encontro pelo caminho, sou forçada a usar um saco grande, sempre.

Gosto de livros. particularmente dos meus, aqueles que escolho, os que me oferecem porque sabem que irei gostar, dos que acarinho pelas dedicatórias que guardam, dos que já comprei apenas por uma capa bem desenhada, dos especiais que tenho em mais do que uma edição, daqueles que me marcaram para a vida e dos que ficararão comigo até à morte.

Meus ou não, cuido-os a todos. Andar com eles protegidos evita que se dobrem as capas e ainda facilita arrumar as canetas e os lápis, que assim não andam soltos.

As primeiras são de 2013 e delas já só restam as imagens de arquivo.
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Esta ▲CAPA ▲foi feita a pensar em mim e nos meus livros, mas aceitam-se encomendas!

No quarto

09 março 2016






Encontrar um elefante com memória de quarenta anos. 
Andava na pré-primária e lembro-me de fazer picotados em papel de lustro.

Uma tarde planeada para ser passada a fazer o que mais prazer me dá.

Descobrir histórias vividas por outros, em casas que não são as suas, quem não fez já este exercício de imaginar quem viveu aqui antes? Quem abria esta janela logo pela manhã? Como terão feito este risco no soalho? Que mistérios se escondem por trás daquela porta que nunca se abre totalmente...

O livro "Quartos Alugados" do Alexandre Andrade, da Colecção Avesso. Editora Exclamação.

Ao anoitecer

22 fevereiro 2016



















Tudo era belo naquele anoitecer único, ma soeur,
Nunca mais depois e nunca antes assim -
Verdade é: só me ficaram as grandes aves
Que ao anoitecer têm fome no céu escuro.

Bertolt Brecht, "Nunca te Amei Tanto", in "Do Pobre B.B."

EU ADORO VOAR!

06 dezembro 2015





"Já escondi um AMOR com medo de perdê-lo, já perdi um AMOR por escondê-lo.
Já segurei nas mãos de alguém por medo, já tive tanto medo, ao ponto de nem sentir minhas mãos.
Já expulsei pessoas que amava de minha vida, já me arrependi por isso.
Já passei noites chorando até pegar no sono, já fui dormir tão feliz, ao ponto de nem conseguir fechar os olhos.
Já acreditei em amores perfeitos, já descobri que eles não existem.
Já amei pessoas que me decepcionaram, já decepcionei pessoas que me amaram.
Já passei horas na frente do espelho tentando descobrir quem sou, já tive tanta certeza de mim, ao ponto de querer sumir.
Já menti e me arrependi depois, já falei a verdade e também me arrependi.
Já fingi não dar importância às pessoas que amava, para mais tarde chorar quieta em meu canto.
Já sorri chorando lágrimas de tristeza, já chorei de tanto rir.
Já acreditei em pessoas que não valiam a pena, já deixei de acreditar nas que realmente valiam.
Já tive crises de riso quando não podia.
Já quebrei pratos, copos e vasos, de raiva.
Já senti muita falta de alguém, mas nunca lhe disse.
Já gritei quando deveria calar, já calei quando deveria gritar.
Muitas vezes deixei de falar o que penso para agradar uns, outras vezes falei o que não pensava para magoar outros.
Já fingi ser o que não sou para agradar uns, já fingi ser o que não sou para desagradar outros.
Já contei piadas e mais piadas sem graça, apenas para ver um amigo feliz.
Já inventei histórias com final feliz para dar esperança a quem precisava.
Já sonhei demais, ao ponto de confundir com a realidade... Já tive medo do escuro, hoje no escuro "me acho, me agacho, fico ali".
Já cai inúmeras vezes achando que não iria me reerguer, já me reergui inúmeras vezes achando que não cairia mais.
Já liguei para quem não queria apenas para não ligar para quem realmente queria.
Já corri atrás de um carro, por ele levar embora, quem eu amava.
Já chamei pela mamãe no meio da noite fugindo de um pesadelo. Mas ela não apareceu e foi um pesadelo maior ainda.
Já chamei pessoas próximas de "amigo" e descobri que não eram... Algumas pessoas nunca precisei chamar de nada e sempre foram e serão especiais para mim.
Não me dêem fórmulas certas, porque eu não espero acertar sempre.
Não me mostre o que esperam de mim, porque vou seguir meu coração!
Não me façam ser o que não sou, não me convidem a ser igual, porque sinceramente sou diferente!
Não sei amar pela metade, não sei viver de mentiras, não sei voar com os pés no chão.
Sou sempre eu mesma, mas com certeza não serei a mesma pra SEMPRE!
Gosto dos venenos mais lentos, das bebidas mais amargas, das drogas mais poderosas, das idéias mais insanas, dos pensamentos mais complexos, dos sentimentos mais fortes.
Tenho um apetite voraz e os delírios mais loucos.
Você pode até me empurrar de um penhasco que eu vou dizer:
- E daí? EU ADORO VOAR!"

Clarice Lispector

Lazarilho de Tormes

11 outubro 2015

"Desejava de todo o coração e até pedia a Deus que todos os dias matasse uma pessoa. E quando dávamos os sacramentos aos enfermos, em especial a extrema-unção, no momento em que o clérigo manda os presentes rezarem, eu era logo dos primeiros, e com todo o fervor e devoção rogava a Deus que o mandasse, não para onde melhor servido fosse, como se costuma dizer, mas directamente para o outro mundo.

E quando algum deles escapava, o Senhor me perdoe, que muitas vezes o mandei para o Diabo. Enquanto aqueles que morriam recebiam de mim tantas bênçãos. Porque durante todo o tempo que ali estive, e andou perto de três meses, só morreram vinte pessoas, e essas, creio bem que fui eu que as matei, ou melhor, morreram a meu pedido. Porque vendo o Senhor que eu trazia permanentemente a morte danada em cima de mim, julgo que foi com prazer que os matou para me dar a vida. Mas os tormentos que naquela altura padeci não tinham remédio. Porque se nos dias de enterro eu comia, naqueles em que não morria ninguém, habituado à fartura, quando era obrigado voltar à minha fome diária, ainda sofria mais. De maneira que não via descanso a não ser na morte, que também para mim, como para os outros, por mais de uma vez desejei; mas ela nunca vinha, embora eu a trouxesse sempre diante dos olhos."

Lazarilho de Tormes
(primeira novela picaresca da literatura espanhola. Datada de 1554, autor anónimo)

Um livro que recebi dum amigo de há muitos anos atrás.
Voltar ao Gato Vadio para ouvir ler algumas das desventuras do desafortunado Lázaro.

Coisas

28 setembro 2015






















"Ocorre-me isto: nesta observação:
que nós continuamos sempre a pintar as pessoas sobre um fundo dourado, como os Primitivos italianos. Elas erguem-se diante de algo indeterminado. Às vezes dourado, às vezes também cinzento. À luz, por vezes, e frequentemente com uma escuridão insondável atrás delas."

Reiner Marie Rilke
do livro, Notas Sobre a Melodia das Coisas

Paddington

09 março 2015





















Do filme que vai estrear não sei nada, do livro, sei que fez parte da minha infância. Estranhamente nunca conheci ninguém que o tivesse lido e quando falo dele ninguém sabe quem é o urso com nome de Estação. 

Escrito por Michael Bond em 1958 e ilustrado por William Collins. Editora Família 2000.


Foi um daqueles livros que li várias vezes e a imagem dum urso amedrontado sentado em cima duma mala, à espera de alguém que se atreva a levá-lo e a cuidar dele, está tão viva que por vezes chego a imaginar cruzar-me com ele na Estação de S. Bento. 

Mas aí teria outro nome.