Mostrar mensagens com a etiqueta Da minha árvore genealógica. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Da minha árvore genealógica. Mostrar todas as mensagens

O meu Advento

27 dezembro 2016









O nosso Pinheiro é um Plátano. É uma árvore feita dum galho do Jardim da Cordoaria, apanhado do chão no ano passado, quando ainda morávamos na outra casa.

A mesa tem a toalha de crochet, os copos e os pratos da avó. Tem a taça dourada da minha mãe, a mesma de sempre e que desde que me lembro apenas sai do armário para a mesa de Natal.

A vontade de fazer postais para comemorar este dia é um costume que estranhamente teimo em não perder.

Decorar com folhas de chocolate, feitas a partir de folhas de tangeriana (seguindo uma receita da Paula) a Tarte de Lima feita pela M e ao mesmo tempo pressentir que um Bolo Rei iria ser destronado.

Ter na mesa todos os doces que são tradição, as Rabanadas e os Bolos de Bolina da minha mãe, a Aletria e os Mexidos que aprendi com a minha avó e pela primeira vez uma sobremesa dela que se sobrepôe a tudo.

O melhor do dia, reunirmo-nos na cozinha para preparar a seia e passarmos a noite juntos apertados num sofá, a única.

Inventamos uma tradição para esta nova família, um outro Natal, novo, como se fosse possível.
Para mim, tão pequeno como o que resumo aqui, mas grande demais para ser revelado. 

As Valentinas

14 dezembro 2016

Entre um passado a preto e branco e o presente com mais cor  estão algumas das mulheres do lado materno da família.

Da minha trisavó Amélia que ficou viúva aos trinta e poucos anos com nove filhos para criar, pouco sei além de que conseguiu levar a vida em frente. 

Os meus bisavós Valentina e Augusto, pais da minha avó Maria Amélia que segurava ao colo a minha mãe ainda bebé.

De tantas histórias com tantos nomes, as mulheres tiveram sempre papéis fundamentais nos enredos de cada uma das épocas. O primeiro destes registos é do ano de mil oitocentos e tal e termina esta semana, comigo e com a minha filha Maria.

Nesta série de bonecas tive vontade de as reunir a todas, todas as raparigas e meninas que foram, cada uma com a sua personalidade, o seu carácter mais ou menos vincado, umas claramente mais seguras do que outras, que submissas e inseguras desistiram dos sonhos mas souberam educar as filhas no sentido contrário, umas verdadeiras emancipadoras e com uma energia fora do comum, todas elas diferentes  na sua identidade mas iguais na sua força. 

A  todas será dado um nome próprio, decidido por quem escolher viver com elas uma vida. A primeira boneca que recebemos é quase sempre a última de que nos desfazemos e por vezes fica guardada à espera dum irmão ou dum primo.

Para mim, que ao encher-lhes o corpo e principalmente a cabeça sentia como se estivesse a criar um cérebro capaz de ter ideias e só pensava que devia enfiar coisas estraordinárias lá para dentro...
todas elas já tinham nome, chamei-as a todas de Valentinas.

Por enquanto são quatro, cada uma é numerada e a primeira é minha. Já estão todas na loja.

Há dias melhores que outros

18 setembro 2016

 Picnic da família em 1925, imagino que fosse Domingo.

Nunca gostei de Domingos, salvá-los seria poder passá-los assim, todos, entre família e amigos.

A minha campanha pelo que é bom.

03 outubro 2015



O meu pai é aquele que colhe do que tem, para mim.

É capaz de misturar maçãs Bravo Esmolfe com Espriega e umas outras quantas variedades nacionais, todas em competição pela maior quantidade de bicho, com folhas de louro e funcho.
Traz couves meio comidas pelos caracóis, abóboras tão tenras que as cozinho com casca, uvas tão amargas que prefiro usá-las para fazer sumo, feijocas que têm vagem com feijão branco e outras com feijão preto, marmelos que se não são consumidos em marmelada nos próximos dias, são consumidos pelas lagartas que de vez em quando se passeiam pelas paredes da cozinha.
São sempre os marmelos mais feios que fazem a marmelada mais bonita.

O meu pai consegue, apesar da sua idade e da minha, não perder a esperança de me fazer conseguir ser apreciadora de vinho. 
É capaz de me continuar a perguntar em qualquer refeição que façamos juntos, Não queres provar? Nem um bocadinho? Olha que ias gostar...

Era dele o livro de Botânica que ainda consulto e guardo como uma relíquia.
É dele a semente que descubro em mim sempre que me vejo com necessidade de mexer nas plantas e na terra. É também por causa dessa semente que deixou em mim, que estou a idealizar um projecto pequenino à volta de vasos com plantas.

O meu pai telefonou-me hoje.
Para me perguntar se queria mais castanhas, tem de as apanhar antes que desapareçam, roubadas por vizinhos humanos e inquilinos esquilos. 
Se queria aproveitar a boleia dele para Barcelos, precisa de ir à Cooperativa Agrícola comprar sementes. 
E sobretudo para me recomendar.
Para este Domingo não deixar de ir votar, porque temos mesmo da mudar isto.

Das crianças que seremos todos os dias

01 junho 2015


Já não me chamam com o mesmo tom de voz, nem tantas vezes.
Precisam menos de mim, muito menos que eu deles.
Há muitos anos que não me cabem no colo, mas carrego-os em mim onde quer que esteja.
Cresceram e são tudo menos as crianças que já foram.
São tudo menos as crianças que para mim sempre serão.

Esplendor na relva

22 abril 2015















Um palácio a dez minutos de casa, à disposição para piqueniques é um privilégio para todos os quem vivem no centro duma cidade e fazem dum jardim público o seu jardim.

No Palácio que já foi de Cristal, o jardim continua a ser das Camélias.

A Primavera traz dias assim, dias em que só apetece viver ao ar livre.

Entrudo

14 fevereiro 2015



Lembro-me de nunca ter gostado do Carnaval e nunca ter chegado a passar por aquela fase de pedir para me mascararem de alguma personagem especial, pelo contrário, nas poucas fotografias em que apareço mascarada (acho que há apenas uma além desta, a de Minhota carrancuda) nota-se bem que o pedido deve ter sido no sentido contrário. 

Descobrir recentemente esta fotografia num álbum de família, de dois parentes fantasiados de holandeses, fez-me entender um pouco mais a razão desta minha aversão a máscaras. 
Ter três anos e ser obrigada a vestir o mesmo fato usado por um rapaz (porque não o da menina?) há mais de 100 anos deve ser um  motivo mais que suficiente para justificar  esta aversão. 

As socas holandesas já não deviam fazer parte do conjunto do meu disfarce, pois continuo a gostar muito de usar socas na sua versão tradicional portuguesa.

...


Ainda sobre o frio e as frieiras e voltando a este post, agradeço todos os conselhos preciosos. Como é óbvio não acredito numa solução milagrosa para todos em geral. Os diferentes tipos de pele, características fisiolóligas de cada um e um cem número de detalhes que nos distinguem, fazem-me crer que será impossível existir um remédio que tenha os mesmos resultados em toda a gente. Daí a melhor solução ser ir experimentando as várias alternativas até acertar numa que resulte connosco.


O meu pai conta que em miúdo a minha avó Ermelinda o mandava ir a uma cangosta específica, colher uns ramos de urtigas, nessa cangosta em especial, sombria e com pouco movimento de pessoas e vacas, as urtigas cresciam à vontade e era certo que não era uma ida em vão. Depois era ele mesmo que aplicava as urtigas nas costas da minha avó com a intenção de lhe activar a circulação. Segundo ele estes tratamentos eram regulares e faziam efeito.


Não cheguei a seguir nenhum destes tratamentos de choque, aliás fiquei-me por um bem levezinho e que vem dos tempos em que era bebé e a minha mãe, na muda da fralda, me besuntava com uma boa camada e ainda a cobria com pó de talco da mesma marca, Lauroderme. 

Dormir com uma boa camada de Halibut (o equivalente usado nas seguintes gerações) nas costas das mãos fez com que as frieiras desaparecessem em poucos dias, não sei se resulta com todos mas comigo foi milagroso. 

Até já avô

05 janeiro 2015


























O Sr. Meireles (a pilotar este avião), teve grandes amigos e era um bom contador das histórias que viveu, ficou famoso por ser capaz de comer tachos inteiros de arroz de frango quando faziam os tradicionais picnics familiares, adorava automóveis e foi dos primeiros a conduzir, o carro do Pai, na Avenida de Gaia, ainda guardava a multa que lhe passaram por excesso de velocidade (30Km?), perdeu o amor da vida dele há 20 anos, desde aí no dia do seu aniversário acendia um candeeirinho com a Santa Teresinha (a preferida da minha avó), entretanto perdeu uma filha e outros familiares, mas recuperou o gosto pela vida e com a ajuda da outra filha aguentou-se ano após ano. 
Independente no seu dia-a-dia e sem nenhum problema de saúde, aos 104 anos foi-se afastando da vida sem nunca lhe perder a lucidez. 

Anteontem, conversar ao telefone com o neto que está a viver nos Açores, deu-lhe uma alegria imensa. 


Ontem depois do pequeno almoço adormeceu para sempre. Pensamos que estava na hora e cauteloso e regrado como sempre, achou que tomar o pequeno-almoço antes da viagem seria a atitude mais acertada. 


Boa viagem avô e só esperamos que os encontres a todos de braços abertos lá em cima.*


...

Manda um beijo à tua Mimi, tenho tantas saudades da avó.

"De Pequenino Se Torce O Destino"

23 outubro 2014





À primeira vista parece que foi um dia cinzento, comum a tantos dos que se vivem por aqui. Começam radiosos, céu claro que vai passando de azul a cinza, até desabar numa cor que não é nenhuma, transparente como a chuva. 

À primeira vista pode parecer que foi um dia assim, mas não, foi daqueles que começam ao sol numa esplanada na Ribeira, o único da semana sem pressa de cumprir as horas marcadas pelos outros (no caso dele). Lê-se o jornal enquanto se come uma torrada, tiram-se fotografias durante um café, fala-se da vida, a que temos. 

Um dia destinado a atravessar pontes e se atravessam. E são tantas, as que nos ligam como afastam. 
Aos 25 anos aproximam-se as margens, o rio corre muito menos turbulento, já não existe o receio de perder o pé, ficar sem ar, ir ao fundo e não ter força para bater com o pé na lama, aquele impulso que basta para nos fazer vir à tona... e respirar e aguentar o próximo mergulho e ter força para bater mais uma vez o pé... e pronto é isso, ele cresceu e eu respiro melhor.
A ponte que se construiu durante anos não foi de fácil engenharia, mas parece que afinal o projecto não está mal amanhado!

O título do post vem do nome deste disco, da canção deste letrista, o músico que o ensinou a gostar das palavras além da música. A necessidade que tem dela e não se imaginar a viver uma vida privado dessa relação, levou-o esta semana a confessar que: "Se um dia ficasse surdo e não pudesse mais ouvir música, a coisa se resolveria com um tiro nos cornos". 
Recorremos a muitas ferramentas nesta obra de construção que é a educação dum filho, muitas delas damo-las nós, umas vezes assim, através das músicas que os fazemos ouvir. Outras vão buscá-las a outros sítios... a outras pessoas.

Quando um dia descobriu o Aleixo e "Este livro que vos deixo", carregou-o debaixo do braço para onde quer que fosse até o ter lido todo, tinha oito ou nove anos e foi assim que despertou para a poesia, pelas mãos de um poeta quase "analfabeto".
A irmã participou hoje numa manifestação de estudantes contra o Sistema de Educação. A falta injustificada (por faltar a uma aula) não poderia ter melhor justificação, por isso lá foi protestar e teve todo o nosso apoio. Nunca antes tinha participado numa luta que lhe dissesse tanto e partisse dela a iniciativa de se manifestar publicamente. 

A semente pode ter sido lançada nas primeiras vezes que a levei, espero eu. Desejava que germinasse num verbo destes, capazes de reivindicar, revolucionar, contestar, pensar...
De mim, não sei o que lhes deixarei, nem a um, nem a outro. Espero deixar-lhes o que tenha de melhor, já o resto... o menos bom, que o saibam distinguir, esse já seria um bom legado, tê-los ensinado a escolher.

O Porto é o porto

23 setembro 2014


Se a felicidade mora ao lado... é para lá que eu vou, desde que eles estejam comigo.
Ainda com muita coisa por acomodar, ainda com a cabeça no ar, ainda a pensar no ontem e no que podia ter sido, ainda a desejar mais e melhor, ainda...
Ele diz que quando criarmos as nossas rotinas tudo melhora, espero que sim, aos poucos tudo tem melhorado. Temos criado os nossos espaços consoante podemos, mundos pequeninos onde não cabe tudo o que nos pertence, o que temos e o que havemos de fazer. Agarrámo-nos a esta vida como podemos e sabemos, cada um à sua maneira, nem mais nem menos, muita esperança, muita raiva, algum conformismo, muita luta, temos os nossos dias, só nossos.
Uma coisa é certa, não se fala em saudades.

Tempos invisíveis

17 setembro 2014


Nestes dias cinzentos de nevoeiro, sinto que a natureza está do meu lado, mas nem sempre estar do meu lado é ser bom para comigo. Se está na minha natureza ser sombria e taciturna, estes dias trazem-me uma dose suplementar de melancolia, que torna difícil a convivência comigo própria. Mais introspectiva do que nunca chego a sentir que fico invisível, tal e qual a paisagem. Depois o silêncio destes dias... abafa alguns dos sons, ao mesmo tempo que tudo clarifica, contrariamente ao que temos em redor desaparecido em instantes. Chego a pensar que passado o nevoeiro tudo estará diferente, um outro lugar, não sei bem como, mas um outro, não este que conheço e agora se tornou invisível. 
Quando fui embora este tempo ficou para trás, troquei-o por dias de sol que rapidamente alternam com chuveiros rápidos, o meu filho diz que o Porto tem um clima tropical e esquizofrénico. Talvez seja essa passagem rápida, esta inconstância entre o cinzento (que me agrada) e o azul (que me faz bem)  que tornam a cidade tão acolhedora, apesar do seu carácter difícil de caracterizar.
Acordar de madrugada, levar logo com o sol na cara, depois de durante a noite os relâmpagos nos forçarem a abrir os olhos, para confirmar se alguém tinha acendido a luz do quarto, é a melhor das mudanças que o dia nos pode oferecer. 
Viver ao nível dos telhados é controlar mais do que nunca o movimento das nuvens. É conhecê-las pelo nome, abrir as portadas e convidá-las a entrar.