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Quem cria asas tem de voar

10 novembro 2015


Um post com três semanas de atraso.

Quando caiu a noite estava encasulada nela própria. Se a minha intuição estava certa aqueles movimentos bruscos, em que de vez em quando se parecia contorcer, eram em tudo semelhantes a contrações.

Ao amanhecer o dia, tinha em casa uma borboleta.

Se as semanas de transformação no sentido de criar asas, foram de espera e ansiedade, a chegada deste dia era motivo de satisfação e curiosidade.
E como se já soubesse para o que vinha e na viagem tivesse aprendido tudo, cheia de sabedoria, fez o que se espera que faça, quem durante tanto tempo se esforçou por criar o que lhe permite voar.

Quem cria asas, tem de voar. 
E voou.

M E T A M O R F O S E

12 outubro 2015


Dum dia para o outro tornou-se irreconhecível.
Depois de despir o fato das riscas, que deixou amarfanhado e empregnado (ao investigar mais sobre o assunto descobri que na pele está o segredo da autodefesa) de veneno num canto, à laia de roupa suja à espera que a hospedeira arrumasse, acomodou-se na única haste de arruda que não chegou a devorar e ali está.

Quieta e concentrada no processo de transformação que espero a leve a tornar-se numa mistura de pássaro e insecto, uma borboleta que tem cauda de andorinha. 

O que se passa agora, dentro daquela espécie de amendoim verde manchado de amarelo, é um mistério que só ela sabe.

Diário duma casa.

08 outubro 2015







No mesmo dia em que a Arruda entrou nesta casa foi-nos deixado um hóspede. 
Foi-nos literalmente depositado pela borboleta que passou por cá, mas isso só descobri dias depois.

Podia ter deixado a lagarta exactamente no mesmo sítio, no vaso da arruda na varanda, podia fazer de conta que não a tinha vista e deixá-la ao deus dará, exposta às pombas e às gaivotas, sujeita a ser levada por uma lufada de vento... 
Decidi contrariar o ciclo natural de todo o processo, que neste caso podia ser muito curto e prolongá-lo, esperando que o ciclo se feche e eu o possa acompanhar do princípio ao fim, ou quase.

Isto foi há uma semana, entretanto já cresceu e a Arruda que estava no vaso já desapareceu. 
Contrariar o ciclo da natureza teve algumas consequências, a mais visível foi o acelaramento no crescimento do animal, porque é dum animal que se trata pela quantidade e forma como come, ou devora.
Por causa disso tive de recorrer às minhas vizinhas Floristas para me fornecerem de Arruda. As senhoras riram-se do episódio e no dia seguinte lá fui buscar uns ramos que colheram do próprio quintal.
Entregaram-ma com um sorriso malicioso e um aviso, Olhe que eu acho que leva aí mais uma.

Uma das mudanças na rotina do animal, pelo facto de estar dentro de casa, é que os horários para se alimentar são alterados pela luz artificial, conclusão está baralhada, come durante o dia e durante a noite e cresce a olhos vistos.

Se da fruta trazida pelo meu pai, havia pequeninas lagartas a trepar pelas paredes da cozinha e que serviam de aperitivo ao gato, desta nem se aproxima e não deve ser apenas pelo cheiro da Arruda, acho que o tamanho o deixa intimidado.

Aqui em casa há quem me considere estranha por dar atenção a uma lagarta, quanto a ela, não me estranhou e acho que já se habituou a mim.

Já fiz marmelada, já usamos marmelo e abóbora por descascar (para não se desfazer) em estufados com legumes variados, a M já fez Crumble de maçã e agora que os marmelos já acabaram, chegaram mais feijocas, é altura das castanhas, para além das assadas no forno, aceitamos sugestões.
...

Das vezes que a  minha casa foi escolhida para ser hospedaria, ficaram estas imagens dos hóspedes.