Tosquia

24 maio 2016

Aprender como se faz uma tosquia, com quem sabe e o faz duma forma que consegue ser encantadora e encantatória, para as ovelhas que se rendem e para quem assiste às manobras da tosquia. 

O respeito que o Martin sente pelos animais revela-se na maneira como eles reagem ao toque e se deixam controlar quase sem oferecer resistência.

Os detalhes são importantes, os sapatos feitos à mão e usados unicamente para o trabalho de tosquia, tradicionais na Nova Zelândia, dão o conforto necessário para as muitas horas seguidas em pé, de quem tosquia e evitam magoar as ovelhas.

Tocar na lã acabada de cortar e sentir o seu cheiro é uma experiência única. Estas ovelhas Bordaleiras de Entre-Douro-e-Minho são animais corpulentos que dum ano para o outro oferecem um considerável manto de lã.

Cortes

20 maio 2016

Há cortes que ao contrário de nos deixarem feridas, nos curam da dor. 

A dor, senti-la ou não, com mais ou menos intensidade pode não ser uma escolha nossa, mas é rendermo-nos ou não a ela.

Cortei-a.

No lugar do sangue correm reflexos do que me rodeio. Escolho coisas e pessoas de quem gosto, me fazem bem e me dão vida.

Perfumes? Não obrigada.

15 maio 2016


Não posso estar exposta ao vento nos dias mais secos da Primavera, passear num pinhal na época da floração, andar pelo meio dos campos ou cearas, fazer piqueniques no meio de ervas altas, perfumar o corpo com essências, nem estar próximo de quem se perfuma, usar ambientadores em casa, detergentes com cheiros a floresta, eucalipto, lavanda e outros... 

Faço alergia aos pólens de árvores como pinheiros e plátanos e a tudo o que é perfumado através de compostos químicos. O meu corpo conhece bem todos os sintomas da Febre dos Fenos e durante anos tomei anti-histamínicos diáriamente

Mas posso segurar um enorme ramo de flores nas mãos sem sentir qualquer tipo de congestionamento.

A semana passada colhi uns ramos da Glicínia que corre o muro do vizinho. Com a chuva que entretanto caiu, caíram também as flores, despiram-se os cachos lilases e esta semana toda a trepadeira é apenas uma mancha verde.

Perfumes? Não obrigada. Ofereçam-me flores.

Uma casa com muitas portas

10 maio 2016








Entregar-me de coração e corpo inteiro ao que mais gosto de fazer.
Experimentar os novos fios tweed e perder-me outra vez no tricot.

Há muitos anos a fixação por casas foi tanta que cheguei a sonhar um futuro a desenhá-las. O sonho de as desenhar apagou-se e ficou no passado, a fixação por elas manteve-se.

Uma casa  com muitas portas, uma para cada um, uma porta aberta para todos e para todos os lados.

A Nespereira do quintal dá uns melros que cantam maravilhosamente.

Uma presença que se tem imposto mais do que nunca na minha vida e na dela. Um gato que faz questão de estar em todo o lado e em todas as ocasiões e que tenho a certeza existe para nos fazer sorrir todos os dias.
...

Percorrer um blogue todo ele cheio de interiores de casas de pessoas das quais não conhecemos a vida, mas invejamos algumas das casas onde moram e só.
E no meio das casas e dos objectos que lhes dão vida, porque das pessoas quase nada sabemos, deparar-me comigo, com uma referência ao meu blogue e acabar  por recordar um post de há pelo menos um ano atrás.

O apelo à liberdade da vadiagem

04 maio 2016


Com as diferenças de temperatura a acentuarem-se a cada dia que passa, estar dentro de casa é um refúgio em certas horas do dia.

Trabalhar com fios de lã novos e descobrir as diferenças que impõem aos trabalhos em que geralmente tenho usado algodão. A força e a personalidade da lã, bem contrária à passividade do algodão, moldam de certa forma o trabalho e é o próprio material a comandar o resultado, muito mais orgânico. Nesta parceria eu mando menos, é uma descoberta deixar-me levar pelas caracteristicas que o fio dita  no resultado das peças.


O mais parecido com ter uma casa na árvore, é ter uma a entrar pela casa.

Seguindo as indicações do Borda D'Água estamos em época de sementeiras, as pevides das abóboras guardadas para o efeito, foram esta semana para a terra.
Agora que finalmente temos um quintal à disposição faltavam as abóboras, iguais às que deixei no pátio da casa que também ficou para trás.

Desde que me lembro e durante alguns anos, ajudava a colher flores para os tapetes que cobriam os caminhos de terra batida e se faziam na aldeia por esta altura do ano.
Tenho um tapete de flores e foi a Japoneira que o fez.

Fazer dum prato de morangos frescos o principal prato do dia.

Nunca gostei de coleiras e os animais que tive nunca as usaram. Desta vez usar coleira é sinal de maior liberdade, daí a excepção. Habituado que estava a varandas, ter um quintal com muros em que a liberdade se alcança à distância dum salto, é tentador e impossível de controlar da nossa parte. A solução encontrada para o caso de se perder por entre os quintais dos vizinhos e não saber voltar, foi colocar um contacto ao pescoço, visível, já que duvido da eficácia do chip, num gato que dificilmente se deixa apanhar. 

Ter um gato que sai de casa para vaguear e por vezes volta apenas ao entardecer para comer e receber mimos, é uma realidade nova, para nós e para ele.
Sentimo-nos menos donos, ele sente-se livre.
...

A hoje música só podia ser esta. Vivam eles!
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A Primavera apela aos sentidos e com ela o amor desabrocha em variados formatos. Uma palestra com a Antropóloga Helen Fisher sobre o Amor Romântico, vale a pena ver.

[...]

02 maio 2016

Que é voar?
É só subir no ar,
Levantar da terra o corpo, os pés?
Isso é que é voar?
Não.

Voar é libertar-se,
É pairar no espaço, inconsistente,
É ser livre, leve, independente,
É ter a alma separada de toda a existência,
É não viver senão na não-vivência.

É isso voar?
Não.

Voar é humano,
É transitório, momentâneo...

Aquele que voa tem de poisar em algum lugar:
Isso é partir
E não voltar.

Ana Hatherly

Do dia a dia por um fio

28 abril 2016



Há materiais novos para explorar em novos projectos. Desde fios a tecidos, tudo feito a partir de lãs portuguesas da Serra da Estrela.

Colhida na berma dum passeio para um vaso dentro da casa, as ervas daninhas são plantas como as outras e esta já está a florir.

Ocupar os lugares deixados livres na loja, colares novos que são Fios e não só.

É em cima da mesa, enquanto eu trabalho, que ele vem matar as saudades acumuladas ao longo do dia e há dias em que são muitas.

Deste dia

25 abril 2016






















Dos cravos que colhemos da liberdade que semearam.

Do 25 de Abril até hoje e sempre.
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"Pra não dizer que não falei das flores" de Geraldo Vandré, 1968.

Manu & Mitsou

24 abril 2016























Os gatos, o nosso consolo. Assim como os livros.
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"Encontrar uma coisa é sempre agradável; um momento antes e ela ainda não estava lá. mas encontar um gato: é extraordinário! Porque este gato, o leitor estará certamnete de acordo, não entra completamente na vossa vida, como aconteceria, por exemplo, com um brinquedo qualquer; mesmo pertencendo-vos agora, permanece um pouco de fora, e isso faz sempre:

a vida + um gato

o que somado dá, asseguro-vos, uma soma enorme."

MITSOU 
Quarenta desenhos de Balthus com prefácio de Rainer Maria Rilke. Da editora Relógio D'Água.

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Mais um dos meus livros preferidos, descoberto pela noite adentro, através da Ennui.

45 e 8 dias

19 abril 2016























Há datas que se sobrepõem a outras. Não as escolhemos, não são ditadas por nós, subjugadas à nossa responsabilidade. Os acontecimentos que as marcam como especiais, são-nos involuntários e surgem como pequenos milagres dos quais já não estávamos à espera.

Assim tem acontecido desde que começou 2016. Esta data já se sobrepôs a outra menos boa, mas também marcante.
Este ano vai, já está, a marcar uma mudança de era, a minha.

Um dos maiores prazeres é o que retiro do meu trabalho e é dele que se trata neste momento, não  que de repente algo acontecesse, do pé para a mão, nada acontece assim, são muitos anos de investimento  e dedicação que a esta data começam apenas a ser reconhecidos.

E se a idade conta, esta conta muito, 45 anos e 8 dias.

Com esta idade a minha vida dá uma nova volta e se por algumas razões que me fazem sentir o seu peso e luto e resigno-me para aceitar o avançar do tempo, outras fazem-me sentir e acreditar que ainda há muito por fazer e a vida ainda me reserva muito, de bom?, para viver.
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Da exposição, Wolfgang Tillmans, No limiar da visibilidade. Em Serralves.
  
Do filme, Ordet (A Palavra), de Carl Dreyer, Dinamarca 1955