Não há Santos nesta casa

24 junho 2016

























No ano passado viviamos no centro e festejamos no coração da cidade. As sardinhas e os pimentos foram assadas na varanda, mesmo por cima da rua e o jardim da Cordoaria era o nosso único jardim. 
Ontem as brasas acenderam-se no jardim cá de casa e para a festa com Martelos desceu-se até à baixa.

Neste bairro quase todas as casas têm quintal, mesmo assim, nesta noite o fogão dá lugar ao fogareiro e há quem prefira pôr a mesa na rua e fazer do passeio a sala de estar. A rua é enfeitada a preceito e sorrimos a quem passa porque nesta noite fomos todos convidados para a mesma festa.

Quando eu tinha a idade da M não se montavam palcos na Avenida, nem se esperavam milhares de pessoas para assistir ao S. João. Havia menos gente e muito mais espaço.
Havia espaço para de mãos dadas entre amigos e estranhos, se fazerem cordões de gente que corria em rusgas da baixa à Boavista e depois para a Foz onde se "morria" na praia.

Naquela altura havia espaço e tempo para fazer nascer paixões e promessas de amor eterno. Agora ouço as histórias dela e vejo que tudo continua igual, até o brilho que lhe baila nos olhos.

É a noite mais bonita do ano e a mais comprida, aquela em que o tempo se estende da baixa até à praia.

Nesta casa não há Santos mas temos um padroeiro e continuam a acontecer milagres, amores eternos tenho os meus e no S. João continuo a festejá-los.

Manu Je t'aime

21 junho 2016



Passados muitos anos depois da última vez em que recebi uma chamada desconhecida para ir buscar o meu filho ao Hospital, ontem recebi um telefonema de alguém que dizia ter um gato (equivalente em matéria de acelaração de pulsações) muito mansinho mas muito assustado no pátio da sua casa. 
Bem haja a vizinha simpática que comprovou a utilidade da coleira nova. Quanto ao gato, depois de ter avançado quatro números na rua, fui encontrá-lo escondido debaixo dumas cadeiras. 

À vizinha limitei-me a pedir desculpa pelo incómodo e agradecer a atenção, mas evitei, não fosse achar-me ingrata, esclarecê-la de que aquele ar de assustado de quem não sabe o que fazer para sair dali, era enganador e escondia as verdadeiras intenções, estava apenas à espera de a apanhar desprevenida para lhe entrar em casa à sucapa. 

Até porque mais tarde ou mais cedo, ela vai descobrir isso.

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Acreditar que têm sete vidas é uma maneira bonita que encontramos para nos enchermos de esperanças de que nunca os perdemos.

Quanto a mim o que não perco em vidas, tenho ganho em sustos. 
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Ainda procura dormir encostado às almofadas ou nas minhas costas enquanto trabalho na secretária.
É preciso avisá-lo que o Verão está a chegar!
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Talvez o melhor diálogo sobre gatos do cinema, neste filme do Alain Resnais de 1968.
A explicação para a razão da nossa existência está centrada nas vidas deles e se são sete, temos muitos anos pela frente.

A estrela da Serra

15 junho 2016


Foi feita uma primeira amostra com a mesma técnica dos Tapetes de Nós, usando outro material como base de suporte e as lãs da Serra da Estrela. 

O resultado foi aprovado e espero em breve meter mãos à obra para fazer mais umas quantas peças.

Ando a experimentar as espessuras ideiais para os Colares : Cordões e isso obriga a testar diferentes quantidades de fios, pelo meio ficam constelações de verde em que a estrela maior é mesmo a lã.

Dentro de alguns dias subo a Serra numa espécie de transumância, vou ao encontro das lãs e dos fios com que doravante vou trabalhar e espero trazer algum do espírito que apenas se respira por lá.
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A quem estiver pelo Porto convido a passar pela GEADA, no Centro Comercial Miguel Bombarda, têm a oportunidade de conhecer uma loja que vende marcas nacionais de grande qualidade e tocar nos Tapetes de Nós que também estão por lá. 
Não há melhor do que ver com as mãos.

Dias luminosos

13 junho 2016






Aproveitar todas as horas de sol que me entram no atelier, compensando os dias sombrios em que sou forçada a trabalhar com luz artificial.

De todas as vezas que vou a Braga passo na mesma Florista de rua. Vende plantas em vasos mais pequenos, é possível comprar suculentas em doses reduzidas e a metade do preço normal. 
Desta vez deu-me a escolher preço com vaso e sem vaso. 

Uma das minhas paredes preferidas, com desenhos da M e uma ilustração da Yara Kono, via Mariamélia e umas portadas de ambos os lados que me inundam as manhãs de sol e os dias de boa disposição.

Uma manta terminda, uma série nova que aí vem e algumas novidades boas para a Mi Mitrika.

"É Preciso também não Perdoar"

06 junho 2016




"Há uma hora em que se deve esquecer a própria compreensão humana e tomar um partido, mesmo errado, pela vítima, e um partido, mesmo errado, contra o inimigo. E tornar-se primário a ponto de dividir as pessoas em boas e más. A hora da sobrevivência é aquela em que a crueldade de quem é vítima é permitida, a crueldade e a revolta. E não compreender os outros é que é certo."

Clarice Lispector
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"O perdão deixa tudo ser como é?
Deixa, porque dá o benefício àquele que cometeu o gesto detestável. Eu gostaria de ser perdoada em todos os casos? Não."

"Só começamos depois de avançar."
 Maria Filomena Molder numa entrevista ao jornal Expresso.
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Savages - "The Answer"

Paisagens que trago comigo

31 maio 2016













A intenção era usar a lã da região de forma a interpretar a paisagem e os pastos que a rodeiam quando, ainda agarrada à pele da ovelha, percorre os caminhos ditados pelo pastor.
Enquanto trabalho nestas peças, Manteigas está no centro do meu mapa.

Experimentar os novos tweeds em pura lã. Mantas mais pequenas que me estão a permitir dar outros passos.

Paisagens que transporto comigo de casa em casa. 
Mantenho-as ao alcance dos olhos enquanto trabalho, em comum, a natureza e o branco da neve .

Fotografia duma obra de Katinka Bock
Winterlandschaft mit Hut, 2011
[Paisagem de Inverno com cabana]
Calcário, feltro e areia

Fotografia dum campo lavrado com neve.
Dum passeio em que levamos a minha filha a conhecer a neve pela primeira vez.
Vila Pouca de Aguiar

Em cima da mesa o que tenho em mãos e como sempre são vários projectos ao mesmo tempo.
Porque os dias são curtos para tudo o que espero fazer deles e o trabalho é uma das prioridades que há muito já foram definidas, porque o corpo reclama e há necessidade de alternar os gestos doridos de cada ofício, porque enquanto concretizo certas peças posso ir reflectindo melhor noutras que estão a amadurecer, porque uma ideia leva a outra e reuni-las dá-me uma visão concreta do que ando e poderei vir a fazer.

Tenho uma camisola nova e não foi comprada

25 maio 2016






Comecei o primeiro KAL em que participei ainda era Inverno, pelo meio meteu-se uma oferta de trabalho irrecusável, um convite para uma colaboração e uma colecção de meias para desenhar.

Ainda vou voltar a falar dela aqui, do porquê de fazer em vez de comprar, das opções de modelos disponíveis, do processo, da escolha dos fios e da paleta de cores.

Faltam os remates e as uniões debaixo dos braços, depois posso dizer com algum orgulho que acabei de tricotar a minha primeira camisola.

Tosquia

24 maio 2016

Aprender como se faz uma tosquia, com quem sabe e o faz duma forma que consegue ser encantadora e encantatória, para as ovelhas que se rendem e para quem assiste às manobras da tosquia. 

O respeito que o Martin sente pelos animais revela-se na maneira como eles reagem ao toque e se deixam controlar quase sem oferecer resistência.

Os detalhes são importantes, os sapatos feitos à mão e usados unicamente para o trabalho de tosquia, tradicionais na Nova Zelândia, dão o conforto necessário para as muitas horas seguidas em pé, de quem tosquia e evitam magoar as ovelhas.

Tocar na lã acabada de cortar e sentir o seu cheiro é uma experiência única. Estas ovelhas Bordaleiras de Entre-Douro-e-Minho são animais corpulentos que dum ano para o outro oferecem um considerável manto de lã.

Cortes

20 maio 2016

Há cortes que ao contrário de nos deixarem feridas, nos curam da dor. 

A dor, senti-la ou não, com mais ou menos intensidade pode não ser uma escolha nossa, mas é rendermo-nos ou não a ela.

Cortei-a.

No lugar do sangue correm reflexos do que me rodeio. Escolho coisas e pessoas de quem gosto, me fazem bem e me dão vida.