A una mujer

27 julho 2016




































No hay que llorar porque las plantas crecen en tu balcón, no hay
que estar triste si una vez más la rubia carrera de las nubes te reitera
lo inmóvil, ese permanecer en tanta fuga. Porque la nube estará ahí,
constante en su inconstancia cuando tú, cuando yo -pero por qué nombrar el polvo y la ceniza-.
Sí, nos equivocábamos creyendo que el paso por el día era lo efímero, el agua que resbala por las hojas hasta hundirse en la tierra.

Sólo dura la efímero, esa estúpida planta que ignora la tortuga, esa blanda tortuga que tantea en la eternidad con ojos huecos, y el sonido sin música, la palabra sin canto, la cópula sin grito de agonía, las torres del maíz, los ciegos montes.
Nosotros, maniatados a una conciencia que es el tiempo,no nos movemos del terror y la delicia, y sus verdugos delicadamente nos arrancan los párpados para dejarnos ver sin tregua cómo crecen las plantas del
balcón, cómo corren las nubes al futuro.

¿Qué quiere decir esto? Nada, una taza de té. No hay drama en el murmullo, y tú eres la silueta de papel que las tijeras van salvando de lo informe: oh vanidad de creer que se nace o se muere, cuando lo único real es el hueco que queda en el papel, el golem que nos sigue sollozando en sueños y en olvido.

Julio Cortázar 

... 

E assim, hoje, me quiseram oferecer um sorriso. E assim conseguiram.

Por estes dias

26 julho 2016









Ainda a aprender a conhecer a casa onde vivo desde há sete meses, não tem sido fácil a relação com esta estação do ano, assim como já tinha sido difícil com o Inverno.

Como uma casa típica do Porto e já centenária, as paredes de granito bastantes frias nos meses de Inverno tornam-se agradavelmente frescas no pico do Verão. 

Estando a casa dividida em três pisos, calhou-me o mais temperado no Inverno, mas o mais quente no Verão.
Na parte debaixo da casa, posteriormente transformada numa cave, depois de ter dido retirada toda a terra, a temperatura é tão baixa que se torna agradável nestes dias mais quentes. 
O piso intermédio é agora o mais ameno e apetece passar os dias na cozinha com as portas abertas para o quintal.
O piso de cima, principalmente onde trabalho, virado a nascente, é insuportavelmente quente, apanhando todo o sol que se esquivou durante o resto do ano.

Por estes dias não tem sido fácil aguentar estas temperaturas ao mesmo tempo que se trabalha com lãs, fazendas e burel, mas quando se gosta gosta-se e ter esta luz compensa tudo o resto, quero aproveitá-la toda, pois daqui a uns meses volta a penumbra.

Já há tempos escrevi um post sobre o termos a sorte de ser lembrados quando alguém se quer desfazer de algo que para si se tornou dispensável, mas que sabe que o bom estado da "coisa" ainda poderá tornar a vir a ser útil a alguém.

Foi uma surpresa receber pelo correio uma Máquina Noveladora antiga e já fora de uso. Apenas tive de comprar um pequeno acessório que faltava, facilmente encontrado numa loja aqui do Porto especializada em material de costura e que ainda tem stok peças antigas de máquinas que caíram em desuso. Ficou apta a trabalhar. 
Uma ferramenta antiga nova que se tem revelado uma preciosa ajuda. Tenho-a usado para fazer novelos dos fios que apenas tenho em cones grandes, pois assim consigo transportar o trabalho para todo o lado, tenho criado novos fios, misturando dois fios diferentes de forma a obter os mesclados que tanto gosto de usar, é muito mais fácil trabalhar o fio já novelado, do que trabalhar com dois em separado que estão constantemente a torcer-se um no outro e quando os fios são demasiado finos para o que preciso, novelo-os usando vários, conseguido assim trabalhar um fio grosso e apenas num só novelo.

Claro que se perde tempo a fazer os novelos e apetece fazer novelos de tudo, pois a forma como se conseguem organizar por cores e o manuseamento que permitem, dá-nos um entusiasmo difícil de controlar.

Um pequeno colaborador que além de ocupar pouco espaço é manual, o que facilita tudo.

Pelo meio da semana e durante um saída rápida em busca dum quiosque, que não foi assim tão rápida pois ainda me estou a familiarizar com a zona, descobri uma planta que apenas conhecia dos livros, uma Setcreasea commelinaceae, que agora espero venha a ganhar raízes para poder ser transplantada. 

Não há crime ao roubar plantas abandonadas em jardins alheios, pelo menos foi o que aprendi com a avó Maria Amélia.

Prometi que mal fizesse os primeiros novelos os mostrava, uma prova da enorme utilidade desta pequena máquina que infelizmente estava parada desde há anos... mas que agora volta a cumprir funções de forma tão eficiente. 

Obrigada querida Paula pela lembrança!

Num silêncio aflito

23 julho 2016

























Que amor não me engana
Com a sua brandura
Se da antiga chama
Mal vive a amargura
Duma mancha negra
Duma pedra fria
Que amor não se entrega
Na noite vazia?
E as vozes embarcam
Num silêncio aflito
Quanto mais se apartam
Mais se ouve o seu grito
Muito à flor das aguas
Noite marinheira

Vem devagarinho
Para a minha beira
Em novas coutadas
Junta de uma hera
Nascem flores vermelhas
Pela Primavera
Assim tu souberas
Irmã cotovia
Dizer-me se esperas
Pelo nascer do dia



Que amor não me engana
Zeca Afonso
...

Num silêncio aflito.
Vem devagarinho para a minha beira.

Da Serra

19 julho 2016










Subir à Serra com o propósito de visitar uma fábrica, conhecer por dentro um projecto com o qual tenho o previlégio de estar a colaborar e tomar-me ainda mais de amores por estas paisagens de lagoas.

Voltar para conhecer uma Serra que só conhecia noutra estação do ano e que desde a infãncia fazia parte dos destinos de Inverno.

Desde há uns meses a trabalhar em exclusivo com fios que têm origem nesta Serra e que ainda trazem com eles, entrançadas nas fibras, pequenas plantas onde as ovelhas pastam, faltava apenas ir ao encontro do espírito deste projecto, cheio duma história que já conta muitos anos.

Há histórias só possíveis de conhecer estado fisicamente nos locais, há fábricas que parecendo museus, são-no duma forma viva e apaixonada, tendo o poder de nos fazer sentir ainda mais orgulhosos das nossas tradições, onde as matérias primas mais simples se transformam nos produtos mais sofisticados, mantendo no entanto toda uma memória colectiva que é visível e se sente a cada toque.

Depois de assistir pela primeira vez a uma tosquia, poder seguir de perto o percurso da matéria prima, desde a cardagem, à fiação até chegar aos produtos finais tem servido para conhecer melhor os materiais que tenho à minha disposição para trabalhar, que são vários apesar de todos serem produzidos a partir da lã.
...

A estadia duma noite foi o prolongamento de todo o encantamento, na Casa das Penhas Douradas.
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Nestes dias de calor, passados no centro da cidade, é difícil saber que aqui tão perto há paisagens assim sem ter vontade de voltar para lá e esperar pela chegada do Outono

Fiação

13 julho 2016


































Através de métodos tradicionais e com equipamentos que vão do tear com centenas de anos, ainda fabricado em Portugal, aos mais modernos com sistemas informáticos instalados, todo o percurso por que passa a lã, desde que chega à fábrica proveniente dos rebanhos da região, até chegar ao fio, processa-se em várias máquinas e várias mãos. Todos em conjunto fazem este ciclo tornar-se completo até se fechar.

O fio não é o produto final, é apenas mais uma matéria prima, aquela que a fábrica utiliza para a produção das Mantas e do Burel.

Se há uns anos atrás era difícil encontrar burel ou sarrubeco, mesmo no comércio mais tradicional e se resumia a uma pequena gama de cores, este está agora disponível nas lojas da Fábrica e para todo o mundo.
Tem uma qualidade incontestável, uma paleta de cores irresistível e é inteiramente produzido em Portugal.
Mais uma prova dada de que sabemos fazer e sabemos fazer bem.

Catálogo

12 julho 2016














Um catálogo com amostras de fios e referências de cores, seguramente com muito mais de cem anos, tantos como algumas das máquinas que ainda laboram na fábrica.

Com a ajuda da M que ía folheando enquanto eu fotografava, fica o registo destas páginas todas cuidadosamente manuscritas, algumas delas autênticas aguarelas.

Cardagem

04 julho 2016














O processo de cardagem industrial é em tudo semelhante ao manual, tendo sido as escovas substituídas por uma máquina que as tem em maior escala e que faz o mesmo trabalho em muito maior quantidade de lã ao mesmo tempo, mas nem por isso dispensando a mão de obra humana.

Depois de ter assistido à Tosquia, vir até à Serra da Estrela, à Burel Factory e dar continuidade ao percurso que a lã faz até ser transformada em fio, foi fazer uma espécie de Transumância da matéria prima.

É ela que está aos meus pés, mas a rendida sou eu.