Do dia a dia por um fio

28 abril 2016



Há materiais novos para explorar em novos projectos. Desde fios a tecidos, tudo feito a partir de lãs portuguesas da Serra da Estrela.

Colhida na berma dum passeio para um vaso dentro da casa, as ervas daninhas são plantas como as outras e esta já está a florir.

Ocupar os lugares deixados livres na loja, colares novos que são Fios e não só.

É em cima da mesa, enquanto eu trabalho, que ele vem matar as saudades acumuladas ao longo do dia e há dias em que são muitas.

Deste dia

25 abril 2016






















Dos cravos que colhemos da liberdade que semearam.

Do 25 de Abril até hoje e sempre.
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"Pra não dizer que não falei das flores" de Geraldo Vandré, 1968.

Manu & Mitsou

24 abril 2016























Os gatos, o nosso consolo. Assim como os livros.
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"Encontrar uma coisa é sempre agradável; um momento antes e ela ainda não estava lá. mas encontar um gato: é extraordinário! Porque este gato, o leitor estará certamnete de acordo, não entra completamente na vossa vida, como aconteceria, por exemplo, com um brinquedo qualquer; mesmo pertencendo-vos agora, permanece um pouco de fora, e isso faz sempre:

a vida + um gato

o que somado dá, asseguro-vos, uma soma enorme."

MITSOU 
Quarenta desenhos de Balthus com prefácio de Rainer Maria Rilke. Da editora Relógio D'Água.

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Mais um dos meus livros preferidos, descoberto pela noite adentro, através da Ennui.

45 e 8 dias

19 abril 2016























Há datas que se sobrepõem a outras. Não as escolhemos, não são ditadas por nós, subjugadas à nossa responsabilidade. Os acontecimentos que as marcam como especiais, são-nos involuntários e surgem como pequenos milagres dos quais já não estávamos à espera.

Assim tem acontecido desde que começou 2016. Esta data já se sobrepôs a outra menos boa, mas também marcante.
Este ano vai, já está, a marcar uma mudança de era, a minha.

Um dos maiores prazeres é o que retiro do meu trabalho e é dele que se trata neste momento, não  que de repente algo acontecesse, do pé para a mão, nada acontece assim, são muitos anos de investimento  e dedicação que a esta data começam apenas a ser reconhecidos.

E se a idade conta, esta conta muito, 45 anos e 8 dias.

Com esta idade a minha vida dá uma nova volta e se por algumas razões que me fazem sentir o seu peso e luto e resigno-me para aceitar o avançar do tempo, outras fazem-me sentir e acreditar que ainda há muito por fazer e a vida ainda me reserva muito, de bom?, para viver.
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Da exposição, Wolfgang Tillmans, No limiar da visibilidade. Em Serralves.
  
Do filme, Ordet (A Palavra), de Carl Dreyer, Dinamarca 1955

Desmarginação

04 abril 2016

"A 31 de Dezembro de 1959 Lila teve o seu primeiro episódio de desmarginação. O termo não é meu, foi ela que sempre o usou, forçando o significado corrente da palavra. Dizia que nessas alturas as margens das pessoas e das coisas se dissolviam de repente. Quando, naquela noite, no alto do terraço onde estávamos a festejar a chegada de 1960, foi acometida bruscamente por uma sensação desse tipo, assustou-se e guardou o caso para si, ainda incapaz de lhe dar nome. Só anos depois, numa noite de Novembro de 1980 - tínhamos ambas trinta e cinco anos, éramos casadas, mães de filhos -, me contou em pormenor o que lhe acontecera naquela ocasião, e que ainda lhe acontecia, e pela primeira vez recorreu a esse vocábulo.

Estávamos no exterior, no alto de um dos prédios do bairro. Apesar de fazer muito frio, usávamos vestidos leves e decotados para parecermos bonitas. Olhávamos para os homens, que estavam alegres, agressivos, figuras escuras excitadas pela festa, pela comida, pelo espumante. Acendiam as mechas dos fogos de artifício para festejar o ano novo, ritual a que Lila, como depois contarei, dera a sua colaboração, e agora olhava com satisfação as linhas de fogo no céu. Mas de repente - disse-me - , apesar do frio começou a cobrir-se de suor. Pareceu-lhe que todos gritavam muito alto e se movimentavam muito depressa. Essa sensação foi acompanhada de náusea e ela teva a impressão de que alguma coisa material, presente em seu redor e em redor de todos e de tudo desde sempre, mas imperceptível, estava a destruir os contornos das pessoas e das coisas e a revelar-se.

O coração batia-lhe descontroladamente. Começou a sentir aversão pelos gritos que saíam das gargantas de todos aqueles que circulavam pelo terraço no meio dos fumos, no meio dos rebentamentos, como se aqueles sons obdecessem a leis novas e desonhecidas. A náusea cresceu, o dialecto deixou de lhe ser familiar, tornara-se-lhe insuportável o modo como as nossas gargantas húmidas banhavam as palavras no líquido da saliva. Uma sensação de repugnância apodera-se de todos os corpos em movimento, da sua estrutura óssea, do frenesim com que se agitavam. Como somos mal feitos, pensou ela, como somos insuficientes. Os ombros largos, os braços, as pernas, as orelhas, os narizes, os olhos, pareciam-lhe atributos de seres monstruosos, caídos de qualquer recanto do céu negro. E o asco, sabe-se lá porquê, concentrava-se sobretudo no corpo do seu irmão Rino, a pessoa mais familiar, a pessoa que ela mais amava.

Parecia-lhe que o via pela primeira vez tal como ele era, uma forma animal atarracada, membruda, a que mais geitava, a mais feroz, a mais voraz, a mais mesquinha. O tumulto do coração dominava-a, sentia-se sufocar. Fumo a mais, mau cheiro a mais, demasiado relampejar de fogos na geada.Lila tentara acalmar-se, dissera a si mesma: tenho de agarrar o caudal que está a atravessar-me e atirá-lo para fora de mim. Mas nesse instante ouviu , entre os gritos de alegria, uma espécie de última detonação, e passou-lhe qualquer coisa ao lado, como que o sopro de um bater de asa. Alguém estava a disparar, já não foguetes e morteiros, mas tiros de pistola. O seu irmão Rino gritava obscenidades insuportáveis na direcçãodos clarões amarelados.

Na altura em que me fez essa descrição, Lila disse também que aquela coisa a que chamava desmarginação, embora a tivesse atingido de forma clara só daquela vez, não era totalmente nova para ela. Por exemplo, já tivera muitas vezes a sensação de entrar, durante fracções de segundos, numa pessoa ou numa coisa, ou num número, ou numa sílaba, violando-lhe os contornos. E no dia em que o pai a atirara pela janela, tivera a certeza absoluta, enquanto voava em direcção ao asfalto, de que pequenos animais vermelhados, muito amigáveis, estavam a dissolver a composição da estrada, transformando-a numa matéria lisa e macia. Mas naquela noite de fim de ano apercebera-se pela primeira vez da existência de entidades desconhecidas, que quebravam o contorno habitual do mundo, deixando ver a sua natureza assustadora. E isso tinha-a transtornado."

A Amiga Genial, de Elena Ferrante 
Editora Relógio D' Água

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Quase todos os meus livros preferidos estão de alguma forma ligados, não apenas e obviamente aos autores, mas também às pessoas que mos ofereceram ou aconselharam e aos momentos especiais em que os li. Este é mais um que ficará para sempre associado a alguém que já entrou na minha vida.

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A última fotografia é da Diane e tem como título "Comme je la vois".

01 abril 2016


As minhas almofadas na Time Out Porto deste mês.
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Estão disponíveis na loja e na Geada, no Centro Comercial Bombarda.

Como é que se medem os dias?

28 março 2016







A um ritmo que aparenta tranquilade, todos os dias seguem um após outro como dita o calendário.

Se um dia é medido em horas, o que faço é ao km, metros e metros de fio trabalhado.
Os meus dias são contados ao metro e têm as cores das lãs que escolho. 

Dar continuidade ao que vem sendo feito, corrigir para melhorar, refazer... 
Desenhar, fazer paletas de cores e levar ainda mais a sério o trabalho dos padrões, para os outros e para mim.

Peças novas a germinar, há ideias que é preciso amadurecer.

Sentir-me como como sei que se sente o gato. Olhar para fora, sonhar e pensar em dar o salto.
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Depois duma Manta enviada para New York, felicidade é ver o meu trabalho ser reconhecido:
"Beautiful! Better than expected, very good quality."

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P. ¿Cómo ve el futuro de esta sociedad que nos vende esa idea de felicidad que no es tan fácil de conseguir?



R. (BORIS CYRULNIK): Una de las soluciones que nos han propuesto han sido las pastillas. Es una solución falsa, la droga: tome medicamentos para ser feliz. Ahora sabemos que la felicidad es un tricotar continuo; es el placer de vivir cotidiano; es un trabajo de todos los días, no es metafísico. La artesanía de la felicidad cotidiana se tricota día a día.

Boris Cyrulnik

O espaço que ocupo

23 março 2016


























O espaço que ocupo.

É pouco, o espaço do meu tamanho.

Só me interessa que no espaço que ocupo, caiba tudo o que me é importante.

Judith Scott

22 março 2016


Uma artista textil com um trabalho duma pureza tão intrigante quanto delicada e subtil.
A história duma mulher que esculpia peças fantásticas e misteriosas.

Artista outsider?  Artista.

A florista que há em mim

18 março 2016


Durante o ano que vivi na Cordoaria, fiz amizade com duas senhoras floristas, as mais simpáticas dos Clérigos. Ainda hoje sempre que lá passo, páro para as cumprimentar, foi uma promessa.

Descobri por acaso a Florista que também vende legumes da minha rua, é tão pequena e discreta que passa despercebida e leva-me a crer que não se quer assumir nem como uma coisa nem outra.

Esta afinidade natural com floristas deixa-me intrigada, chego a imaginar que talvez seja uma espécie de empatia que se traduz  numa aura colorida e que só alguns pressentem. 

Sei que quando me deu o ramo para as mãos, dei por mim a aproximá-lo da cara para lhe sentir o cheiro. Talvez tenha sido esse gesto, que ela não pôde deixar de reparar, a mostrar-lhe o que nos une.  

Entrei para comprar flores e saí de lá com limões. Já eu ía no passeio quando a ouvi chamar-me, tinha corrido para a porta para me perguntar se queria uns verdes.